500 Anos: As Marcas do Luteranismo

  • Martinho Lutero foi um dos grandes ícones da educação cristã nas escolas e nas igrejas. Na igreja, apesar de muito distorcida, a educação cristã já era conhecida, mas na escola foi algo inédito. Até então, não se imaginava que uma escola pudesse realizar este papel tão importante. O papel da escola era preparar o cidadão em todas as áreas das relações humanas, porém relação com Deus era papel exclusivo da igreja. Lutero rompe este paradigma e contribui de maneira brilhante para que a educação cristã seja parte da educação e preparação para a cidadania. Lendo o filósofo, historiador e pedagogo César Nunes, acompanho com o autor algumas marcas desta trajetória luterana pela educação. Lutero inaugurou o ensino religioso nas escolas, ele apontou para a centralidade da educação bíblica sem desprezar as demais ciências necessárias à boa formação da cidadania.

    A PRIMEIRA MARCA de Lutero foi a sua luta pela universalização do acesso à escola, ou seja, a escola deveria ser acessível tanto para meninos como para meninas, na sua época só os homens eram educados pela escola. A partir de Lutero o acesso à escola não será mais privilégio de gênero. Todos deveriam aprender a ler e escrever, isto incluía especialmente o acesso à leitura da Bíblia.

    A SEGUNDA MARCA foi a crítica aos castigos físicos. Lutero apontou para a prática de uma abordagem amorosa de acolhimento afetivo às crianças e aos jovens a fim de aprenderem a leitura de forma prazerosa. O professor igualmente precisa ser uma pessoa atenciosa e exemplo de autoridade afetiva, simples e perceba cada pessoa como expressão do amor de Deus. O ensino precisa ser planejado para ser algo agradável e jamais pesaroso e negativo como jornada pesada e desagradável. As atividades lúdicas como jogos, música e canto podem vir a ser os meios mais adequados a fim de gerar uma aprendizagem prazerosa. Lutero insiste que a criança precisa ser feliz na escola.

    A TERCEIRA MARCA vem no sentido da escola não se ater a restritos métodos avaliativos de mensuração de aprendizagem. Ele sonha com uma escola que supere os métodos e as avaliações e debates sem sentido, aqui se enquadram as técnicas de memorização e racionalidade descritiva. Este pensamento é filho da experiência de Lutero que o levou às incertezas da realidade, o peso da culpa e a impossibilidade da verdade racional. O pensamento de Lutero é que a escola possa ser capaz de falar ao coração, ao sentimento e ao significado da existência individual e coletiva.

    A QUARTA MARCA é no sentido da escola não considerar a aprendizagem como um mero adestramento da memória ou da inteligência. Para isso será necessário que a escola tenha práticas que evitem uma tipologia fechada em salas e classes escolares dispostas e ordenadas rigorosamente em fileiras. Jogos coletivos, atividades físicas, observação da natureza, atividades artísticas como teatro e música, estas são inovações na didática luterana. O que se vislumbra na pedagogia luterana é o desenvolvimento integral do ser humano nas dimensões cognitivas, emocionais, éticas, sociais e culturais.

    A QUINTA MARCA vem ao encontro da valorização da literatura e recuperação dos clássicos literários a fim de resgatar a formação humanista pela aquisição de hábitos intelectuais e formação de conduta moral e desenvolvimento nas artes, música e letras clássicas.

     

    Esse conhecimento dos clássicos mundiais proporciona uma abertura do pensamento e a fuga das tradições religiosas que massacravam o desenvolvimento do pensamento humano na época de Lutero. 

  • Lutero desejava que as crianças conhecessem a Bíblia e igualmente tivessem contato com os grandes clássicos literários mundiais, isso favorece o desenvolvimento do pensamento crítico e a formação de um cidadão contextualizado, inserido socialmente e capaz de atuar com criatividade, liberdade, autonomia e propriedade.

    A SEXTA MARCA era a valorização da história, da geografia e da matemática. Aqui se encontra o pioneirismo de Lutero rumo a formação integral do aluno na medida em que esse seja capaz de articular de forma lógica os conhecimentos da matemática, ciências e a cultura em geral. O professor aqui é visto como um líder, articulador, indutor, orientador e jamais um “tirano dogmático”. Assim Lutero advoga a liberdade e a iniciativa individual.

    A SÉTIMA MARCA é a compreensão da filosofia e da pedagogia por parte do aluno com vistas a melhorar a sua condição de ser humano capaz de ser feliz e de realizar a sua missão neste mundo, esse é o destaque humanista do pensamento de Lutero.

    Essas são marcas distintas do pensamento de Martinho Lutero que fazem deste grande teólogo um ícone de inovação e transcendência cultural. A busca de Lutero por um ser humano humanizado e habilitado para o exercício da autonomia e liberdade fazem dele um marco histórico de importância fundamental para a humanidade. Lutero rompeu os limites da igreja que se enclausurava em templos e instituições rigidamente regidas pelo poder eclesiástico centrado no clero em sua época. Até hoje compreendemos a importância deste exercício do ser humano como atuante nas mais diversas áreas do conhecimento e das relações humanas sociais, espirituais e culturais de amplo aspecto. A escola luterana continua com esse desafio de buscar o desenvolvimento integral do ser humano e não apenas treinar a pessoa para ultrapassar as barreiras avaliativas às quais estamos constantemente expostos o que muitas vezes nos remete a julgamentos de exclusão e classificação desumanizadora.

    Esses ideais fazem de Lutero um homem adiante do seu tempo e contemporâneo nosso. Ainda hoje há gritos por libertação e humanização dos processos pedagógicos. Ainda assistimos a prática autoritária dos sistemas que desumanizam a aprendizagem e elevam as supostas autoridades de professores inseguros e desorientados e métodos de treinamentos disciplinares que afirmam a autoridade mesmo que de forma extremamente fragilizada diante dos altos níveis de capacidade intelectual que os nossos alunos apresentam. Hoje, a passagem por Lutero, minimamente deveriam nos convidar à reflexão sobre nossas práticas pedagógicas e a responsabilidade que a igreja pode assumir em prol da libertação do ser humano.

    Pastor Alcione Eidam – Capelão

     

  • Fonte: Ide, Ensinai a Todos – César Nunes